


A Administração do Corpo: Uma Fenomenologia do Adestramento
Lúcios Insanus
Existem livros que se apresentam como meras exposições temáticas e aqueles que se impõem como legítimos acontecimentos do pensamento. O texto A Administração do Corpo: uma fenomenologia do adestramento, pertence, sem dúvida, a este segundo tipo de registro. Não se trata de um estudo sobre o corpo enquanto objeto delimitado de investigação, tampouco de uma crítica externa às práticas contemporâneas de gestão e organização social. O que se oferece ao leitor é uma investigação ontológica, orientada pelo método fenomenológico, cujo propósito é desvelar o modo como o corpo – enquanto lugar originário da experiência e da manifestação do ser no mundo – foi progressivamente capturado, disciplinado e administrado na modernidade tardia. O ponto de partida do livro não é empírico, mas existencial. Parte-se da constatação de que o mundo contemporâneo é atravessado por um esquecimento estrutural: o esquecimento do ser enquanto problema1 . Não se trata de ignorância, mas de um obscurecimento mais profundo, produzido pela hegemonia de uma racionalidade – linguagem da técnica, segundo Heidegger2 – que reduz o real àquilo que pode ser calculado, mensurado, otimizado e, enfim, administrado. Vive-se sob a proliferação de técnicas, indicadores, métricas e protocolos, mas já não se interroga o sentido da própria presença no mundo.